Ariana Grande – Thank u, Next; Artista Coloca os Pés No Chão e Entrega Verdade

Depois de uma turbulenta fase na vida pessoal, acompanhada de perto pelo público através da mídia e de um disco que gerou muita controvérsia no sentido de ame ou odeie, Ariana Grande retorna ao holofote musical mais forte e madura, e entrega seu novo disco Thank u Next.

Se distanciando dos produtores de seu disco anterior, principalmente Pharrel Willians, Grande se joga num universo de sons mais coesos que seu antecessor e traz uma atmosfera mais confessional e fria. O tom aqui é tão noite que em certos pontos chega a tangenciar o fantasmagórico, mas sem deixar aquela pequena luz de fundo, como a luz do corredor que atravessa uma porta entre aberta que alguns de nós estamos acostumados deixar ao ir dormir.

Ariana abre os trabalhos com o que tem de melhor; sua voz. A lúdica e sonhadora Imagine, passeia por corredores vocais texturizados com whistles e sussurros, evidenciando as pirotecnias de uma voz bem treinada.

Needy é talvez uma das faixas mais sinceras e vulneráveis da carreira de Grande. A honestidade auto analítica implícita nos versos, desenha um quadro confessional onde podemos tanto observar como espectadores, como nos identificarmos com as percepções aqui apresentadas.

A repetitiva NASA apesar de trazer um pouco mais de sabor a obra, fica aquém do resto do trabalho.

Bloodline é um dos grandes êxitos do disco e da própria discografia da americana, trazendo trompetes e arranjos eletrônicos, aliados a um letra afiada e um pezinho de salsa, tem tudo para ser uma daquelas promessas de single que no fim das contas ficam só na vontade. (olá Greedy, temos visitas rs)

Wendy Rene foi uma grande vocalista dos anos 60, sem, no entanto, ter              tido sucesso comercial equivalente a suas colegas contemporâneas, como Dionne Warwick, ou mesmo Aretha Franklin. De toda forma sua After Laughter Comes Tears, é o snippet que abre a faixa Fake Smile, onde seu sample também se faz presente.

O tom nostálgico aliado a uma produção contemporânea e a letra composta a oito mãos, trazem uma certa contemplação quanto ao contentamento e a solidão em estar sob as luzes dos holofotes.

Bad Idea é sexy, descompromissada e divertida e mesmo assim não distância em nenhum centímetro da proposta mais seria apresentada até aqui. Produto pop de qualidade em uma produção caprichadíssima. 

Make up não faz nada de bom pelo disco poderia tranquilamente ser descartada do corte final.

Um medo muito forte de algo pode paralisar e arrepiar, assim como algo belo pode ter o mesmo efeito, e é o que acontece em ghostin, a faixa literalmente fantasmagórica do trabalho.  Tudo aqui é trabalhado para inebriar e mergulhar o ouvinte num universo etéreo, um lago escuro e neblinoso de sentimentos e incertezas. Imogen Heap, ao qual foi homenageada pelo cover de uma de suas músicas em Sweetner, é mestra em arquitetar esse tipo de som e Vitoria Monet, colaboradora e backing vocal, ao fundo emula a voz única de Heap, dando mais uma dica que a faixa foi propositalmente inspirada pela inglesa. Menina Ariana está de parabéns.

Êxito melódico e vocal, In my Head abre o último ato do disco, trazendo uma produção mais próxima dos singles lançados previamente. Destacando aqui o refrão harmônico, simplesmente magnético.

Falando em singles, 7 Rings que dominou os charts ao redor do globo na primeira metade de 2019 é sem dúvidas o maior sucesso da carreira de Ariana. Baseada na música My Favourite Things de Julie Andrews para Noviça Rebelde, apesar do enorme sucesso, a produção empoderada fica na zona da superficialidade, o que é uma pena, já que as intenções eram as melhores. Mas um hit é um hit.

Descobrimos a pegadinha na ordem do disco quando encaramos a faixa título e também um dos hits da nova era da artista, Thank u, next, posto como penúltima faixa, sendo a capa do disco de cabeça para baixo e as faixas extraídas como single sendo postas ao final do trabalho, podemos deduzir que talvez, apenas talvez, devêssemos consumir o álbum dessa forma.

E falando em Thank u, next, temos aqui um dos clássicos da década, podendo se juntar definitivamente as playlists saudosistas que serão criadas em ode aos anos 2010’s.

Quando uma canção pode passar pelo crivo da simples audição descompromissada e avança pelos territórios da interpretação das entrelinhas, ela pode se tornar um objeto interessante de esmiuçamento. Breakup with your girlfriend, i’m bored, pode ser lida tanto como uma investida sobre um garoto comprometido, quanto sobre uma alfinetada numa imprensa que não vê a hora de certos relacionamentos entre celebridades chegar ao fim para que se explodam os tabloides com polemicas e linhas e mais linhas de fofocas e detalhes íntimos do casal. Ariana Grande se viu em meio a esse turbilhão e conseguiu monetizar, não como uma Taylor Swift, mas de sua própria forma a seguir em frente e não dar a imprensa marrom um gostinho de barracos e sortes de baixarias.

Sweetner foi como um sonho, com alegorias e caminhos as vezes contraditórios, mas no fim era apenas sonho. Thank u, next é acordar desse sonho, são os primeiros minutos antes do amanhecer, deitado na cama e tentado se lembrar e se recuperar de uma noite de sono turbulenta.

Ariana não fez seu trabalho sozinha, como qualquer popstar global, como Rihanna e Beyoncé, tem a sua disposição um contingente criativo imenso, mas conseguir dar sua identidade e falar de suas magoas confessionalmente, mesmo estando cercada de tanta gente, é um mérito a se exaltar.

Nota; 8,5/10

Para Ouvir;

Imagine

Bloodline

Fake Smile

Bad Idea

Ghostin

Thank, u Next

https://www.pastilhadrops.com.br/2019/05/24/ariana-grande-thank-u-next-artista-coloca-os-pes-no-chao-e-entrega-verdade/

Allison Gui

Jornalista de coração, apaixonado pelo áudio visual e há três décadas deslumbrando o maravilhoso mundo da cultura pop e apaixonado pela arte dos sons AKA música! Cher é minha pastora, mesmo que eu ande pelo vale da sombra do Flop, a música não me faltará.

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