Ariana Grande – Sweetner; O Disco Decola Tarde Demais e o Sabor é Agridoce

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Ariana Grande é conhecida pelos seus temas musicais que podem ir do romance água com açúcar até o mais depravado cenário de sexo, isso tudo sem perder a fines e aquele jeito de menina meiga, divertida e maliciosa. Resumindo, um prato cheio para uma indústria que idolatra todos esses aspectos em uma musa pop. Fora toda essa alegoria, Ariana é dotada de uma excelente capacidade vocal, tendo sido comparada desde o começo da carreira a jovem Mariah Carey, seja na voz ou identidade visual.

Ariana é bem mais humilde que sua provável mentora musical, seja nas ambições, seja na postura vocal. E seu mais novo registro é a prova disso, titulado de Sweetener, o novo disco da artista mescla momentos de descontração com seriedade, sem perder o foco no ponto primordial da obra; uma dor profunda e sombria na alma de Grande.

Raindrops (an angel cried) é uma breve intro que de cara já sinaliza o que há de vir no conteúdo lírico do disco, além de reafirmar seu maior dom; a voz.

Pharrel Williams assina quase metade do projeto e de cara, na primeira canção efetiva do disco, aparece dividindo os vocais e swing com a dona do trabalho em Blazed, uma divertida faixa que cresce a cada audição. Apesar da grande força de vontade a atmosfera descontraída não decola, apenas proporciona bons instantes de descontração intercalados por uma massa enjoativa.

Muito tem se falado da irregularidade desse disco e como muitos fãs de musica pop viraram a cara para o que ouviram e acredito que a terceira faixa, the light is coming, parceria com Nicki Minaj, tenha contribuído para essa má fama. A musica em questão é desastrosa em sentidos inimagináveis numa produção dessa exuberância e competência. Ao lado de uma letra que tenta falar sério sem se levar a sério e uma produção irritante, Ariana despenca como um anjo renegado em meio aos escombros do mal gosto.

R.E.M. é uma romântica produção R&B totalmente imersa no que se produzia no final dos 90’s e inicio dos 00’s, um verdadeiro oásis depois da péssima faixa anterior. Apesar de conseguir preencher qualitativamente o que se espera em um trabalho de Grande, a faixa soa um tanto longa demais, tirando isso é um dos êxitos do disco sem dúvida.

Talvez as coisas tivessem sido mais tranquilas para Ariana se a mesma tivesse decidido colocar o clássico feminista contemporâneo God is A Woman como a segunda faixa, mas falemos disso mais a frente.

Lançada como single recentemente, com um vídeo cheio de simbologias e alegorias religiosas, fora do contexto audiovisual a faixa é efetivamente a primeira realmente boa do disco, remetendo ao que Ariana já produziu e até mesmo clássicos como Like a Prayer de Madonna, tudo aqui leva o ouvinte a apoteose, o que nesse ponto da audição já se faz necessário.

Se em the light is coming caímos sem sutilezas de cara no chão, em Sweetener que dá título ao trabalho, chafurdamos na lama em uma tentativa pífia de trabalhar com um lirismo preguiçoso que faz “subentender” acrobacias sexuais. E a coisa continua azedando na sétima faixa, sucessful, com Ariana falando das delicias de uma vida bem-sucedida. Além de soar ingênua e boba, a artista não convence em sua postura.

Quem ouve o disco até aqui pode pensar que talvez Ariana Grande possa ter perdido a mão e que não há esperança a frente. Porem o set que se deslumbra prova que nem tudo está perdido, ou será que devido ao que se ouviu antes, produções medianas podem soar melhores do que são?

Everytime é uma das melhores faixas do disco, o que não é difícil de ser. Aquela sensação de jams maravilhosos para curtir o verão nos anos 2000 se materializa instantaneamente na mente de quem viveu aqueles tempos e ouve a música. Ponto para a produção caprichada.

Já queridinha dos fãs desde a primeira audição breathing é um R&B Pop com um Q de pop rock oitentista, que vicia instantaneamente. Lembra um pouco o trabalho da artista em Dangerous Woman de 2016. Oremos que vire single.

Encerrando a narrativa que se iniciou lá na introdução do disco com raindrops, o carro chefe do disco; no tears left to cry, ajuda a contextualizar tudo o que presenciamos até aqui e mantem o ritmo de uma ótima sequencia de musicas sem deixar a peteca cair.

Boderline decepciona mais pela curtíssima participação da Deusa do Rap; Missy Elliot, do que pela produção em si.

A também curta better off é o prenuncio da vontade de experimentação que veremos na faixa seguinte, porém ser curta pode ser uma vantagem aqui, talvez calhasse de cometer o mesmo pecado de R.E.M. em ser desnecessariamente longa.

Imogen Heap povoou o imaginário indie nos anos 00’s, trazendo uma atmosfera fantasmagórica digna de Kate Bush. A engenheira musical foi a responsável por um dos melhores discos da década passada. E as boas artistas dessa geração sabiamente trataram de trazer essa influencia para seus trabalhos, como Taylor Swift em Clean do 1989 de 2014, que conta ainda com a mão de Imogen na produção.

Goodnight n go, é uma versão de Ariana para a faixa de Imogen Heap no disco Speak For Yourself de 2005. Trocando os versos iniciais, Ariana dá uma espetacular repaginada na canção e traz para o seu contexto de vida pessoal. A melhor musica do disco e uma das melhores da carreira de Grande.

Pete Davidson é uma balada curta que funciona como uma espécie de espiada dentro do mundo particular do polêmico relacionamento de Ariana com o comediante Pete Davidson que dá nome a faixa.

Get Well Soon fecha o trabalho que começou com um certo amargor e aqui termina mais doce. A curiosidade da faixa é a presença de 40 segundos de silencio em homenagem as vitimas do atentado ao show da cantora em Manchester há alguns anos atrás.

A mão de Pharrel pesou como um todo em Sweetener e depois de quase vinte anos povoando as mais variadas produções no mainstream, o que traz certo cansaço. Do mais, no sentido de produção, tudo vem a calhar e o saldo final é mais positivo do que negativo.

Sweetener peca pela quantidade e desorganização das faixas, uma boa revisão antes do corte final só teria feito bem ao trabalho. Talvez Ariana Grande não tenha uma era tão em evidencia como a anterior, porém será possível passar pela maldição do quarto álbum com certa tranquilidade.

 

 

 

 

Nota 6/10

Para Ouvir; 

God Is a Woman

Everytime

Breathing

No Tears Left to Cry

Goodnight n go

Allison Gui

Jornalista de coração, apaixonado pelo áudio visual e há três décadas deslumbrando o maravilhoso mundo da cultura pop e apaixonado pela arte dos sons AKA música! Cher é minha pastora, mesmo que eu ande pelo vale da sombra do Flop, a música não me faltará.

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