Janelle Monáe – Dirty Computer; Quente, Úmido e Cheio de Fantasias

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Janelle sempre foi adepta dos ditos ‘álbuns conceito’, seja com seu ótimo álbum de estreia o The ArchAndroid de 2010 ou o roqueiro cheio de soul The Eletric Lady de 2013, a moça sempre passeou bem por bases e experimentações das mais diversas, fazendo um mix de voz e influências de encher os ouvidos.

Em Dirty Computer, seu mais recente trabalho, Monáe chega ao ápice dessas boas influências, colocando dance, hip hop, pop, rock, eletrônico e Prince numa atmosfera épica e religiosa, para executar uma crestomatia á sexualidade e a feminilidade.

A metálica Dirty Computer abre os trabalhos, já dando o tom noturno da obra e pincelando por cima o que vem por aí.

Crazy, Classic, Life traz forte os teclados, baterias e sintetizadores oitentistas e consagrados nessa geração que tem adoração por essa década.

Take a Byte tem um swing gostoso e uma deliciosamente atrevida letra, cheia de indiretas sexuais escondidas em analogias ao mundo cibernético.

Screwed traz um pouco de pop rock a mistura, com um refrão chiclete de primeira. Se fosse lançada em 87 seria um clássico instantâneo.

Django Jane deixa o tom um pouco mais serio e politizado com o disco abraçando o rap e o hip hop. A faixa aqui funciona como um belo manifesto a liberdade feminina.

Pynk se distancia um pouco do clima estabelecido no disco até aqui, trazendo uma linguagem mais radiofônica e nem por isso menos interessante.

O que acontece quando um artista quer homenagear seu ídolo colocando toda sua criatividade, calor, suor e talento para fora, numa faixa visceral e extraordinária?

O resultado pode ser ilustrado com Make Me Feel, uma homenagem a altura do imortal Prince. Seja pela letra extremamente sexy, pelos falsetes bem colocados ou pela produção que valoriza aquela guitarra safada e cheia de tesão, marca registrada do gênio.

I Got The Juice é uma faixa produzida e em parceria com Pharrel Williams, que acaba tomando muito para si o trabalho, e a deixando como uma das mais genéricas e menos interessantes da obra.

A sexy I Like That traz a sonoridade para os campos do hip hop e R&B novamente, seguida pela arrastada Don’t Judge Me.

So Afraid é uma boa balada confessional que vai dando o tom de despedida do disco, como uma reflexão no taxi após uma festa inebriante. As guitarras distorcidas e os coros dão um ar religioso a faixa. Coro aliás que inicia a última música do disco; Americans.

Seguindo a linha religiosa, a canção é uma crítica ao atual cenário político e social dos Estados Unidos.

“I like my woman in the kitchen, I teach my children superstitions, I keep my two guns on my blue nightstand. A pretty young thang, she can wash my clothes, But she’ll never ever wear my pants.” / “Eu gosto da minha mulher na cozinha, eu ensino superstições aos meus filhos, eu mantenho minhas duas armas na minha mesa de cabeceira azul. Uma mulher bem jovem, ela pode lavar minhas roupas, mas ela nunca vai usar minhas calças.”

Americans fecha muito bem o conceito político do álbum e amarra bem o conjunto da obra.

Janelle conseguiu entregar com dignidade o melhor trabalho de sua carreira até aqui, se mantendo fiel a sua estética sonora e sem medo de experimentar e ir além no seu desejo de se aperfeiçoar como artista. Ao mesmo tempo Dirty Computer é pop e de excelente digestão, sem necessariamente soar descartável e piegas. O último disco pop a oferecer essa dinâmica de conceito, referencias, pop e sem ser posto como um mero produto do mercado foi o Ray Of Light de Madonna de 1998.

Janelle não é uma nova Madonna, nem uma nova Tina Turner ou mesmo um novo Prince e agradecemos aos deuses da música por ela ser apenas Janelle.

 

 

Nota 9/10  

Para ouvir;

Crazy, Classic, Life

Take a Byte

Screwed feat. Zoe Kravitz

Make Me Feel

So Afraid

Americans

 

Allison Gui

Jornalista de coração, apaixonado pelo áudio visual e há três décadas deslumbrando o maravilhoso mundo da cultura pop e apaixonado pela arte dos sons AKA música! Cher é minha pastora, mesmo que eu ande pelo vale da sombra do Flop, a música não me faltará.

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